sexta-feira, 17 de julho de 2009

Bem vindo a São João del-Rei


"Aqui é d'El Rey. E há que andar por estas ruas e descobrir belezas insuspeitadas. Há que se surpreender em cada esquina entre o colonial e o eclético, entre o barroco e o neo-clássico. Há que se ver mais do que com os olhos, enxergar com o coração, ampla retina que açambarca séculos e transborda espanto e susto.

Aqui é d'El Rey, com apóstrofe e hipsilo, de D. João e Thomé Portes, do garimpeiro João Barcels faiscando ouro no Arraial Novo e da crônica pioneira de José Mattol, escrita nas primeiras décadas de setecentos.

Aqui é d'El Rey,Comarca do Rio das Mortes, nascida no Vale do Lenheiro, entre as betas auríferas do alto das Mercês e p Morro da Forca, ironicamente chamado de Bonfim. Entre o contraforte rochoso, de um lado, e os morrotes, do outro, d'El Rey espaira-se às margens do córrego que a atravessa, tímido regato que se avoluma revoltoso e irado nas cheias e preenche o vão de cais a cais. Os antigos sabiam dos mistérios deste riacho surpreendente por isso as pontes monumentais que transpõem, do Rosário e da Cadeia, com arcarias e esporões de pedra, prontas a resistirem à impetuosidade das águas.

E porque é vale é montanha, os arredores da cidade estimulam passeios ecológicos e o encanto das cachoeiras compensa a aspereza das caminhadas. Vale a pena explorar a cercaria para encontrar a natureza em festa. Pois tudo é festa para quem nasceu no meio a rituais barrocos.

Aqui é d'El Rey. Tudo é um convite aos olhos e à emoção, como quem chega de longe e a água quente o espera para o banho reconfortante, a mesa posta, a palavra amiga.

Não basta se encantar com os templos, portadas magníficas como as do Carmo e São Francisco, simplicidade retilínea no Rosário, Catedral do Pilar e Mercês. Não basta louvar entalhadores e mestres do pincel que fizeram das naves e capelas-mor o umbral de um paraíso imaginário. Nem admirar-se da douração profusa dos altares ou das volutas e concheados nas quais se retorce a madeira bruta de púlpitos ornados com dosséis.

É preciso também ouvir a sinfonia de bronze destes sinos, o dobre festivo ou fúnebre, único no país, que desperta, avisa, alerta, anuncia e dialoga com a população em sons, repiques e "terentenas".

Aqui é d'El Rey, ritualística e musical. Por esta razão, é preciso ouvir os acordes de orquestras centenárias como a Ribeiro Bastos e a Lira Sanjoanense, em Te Deum, em novenas, motetos e matinas.

Não basta caminhar praças tranqüilas como a do Carmo, do Largo da Cruz, da Câmara, a do Chafariz da Legalidade, ou imponentes como a de São Francisco com suas palmeiras imperiais.

É preciso também enveredar por confins do centro histórico e descobrir vielas pitorescas, o Beco do Cotovelo, o conjunto eclético da Rua Santo Elias, a aparência de presépio do casario da Rua Santo Antônio, o Beco da Escadinha nas proximidades da Igreja do Carmo. Há que se visitar museus e reencontrar o passado, sobretudo o de Arte Sacra, o Regional e o Ferroviário. É absolutamente necessário sobrar algum tempo para voltar a ser criança e viajar na Maria Fumaça até Tiradentes, outra jóia à sua espera.

Aqui é d'El Rey. Há tesouros arquitetônicos perdidos nas ruas transversais, lojas de incríveis quinquilharias e antiguidades, tão pequenas como alcovas, tão ocultas como pepitas no cascalho. Há que saber descobrir sabores da terra, bolinhos de feijão, licores e doces caseiros. Há que se apreciar o talento de seus artesãos, pintores, santeiros, fabricantes de móveis, bordados e artistas de crochê, de crivo e da renda de birilo.

Palmilhar o chão, como fizera, seus primeiros habitantes. E não se atenha às fachadas austeras de beira-seveira, às sacadas de ferro rendilhado, às platibandas encimadas por jarretes e pontais como as que se exibem na Rua Direita, na Rua da Prata, na Rua do Comércio e na Rua Municipal. Não se acanhe em pedir permissão para invadir um destes espaços privados ou visitar os públicos: em muitos deles o século XIX mostra-se por inteiro, com portais de pinho de riga, forros de saia-e-camisa, pisos de tábuas largas, oratórios seculares e móveis ancestrais familiares. Porque aqui é d'El Rey.

Não lastime possíveis descaraterizações ou aberrações cromáticas de duvidoso gosto que, vez por outra, perturbam a harmonia de conjuntos. Aqui, como em toda parte, nem sempre o homem compreendeu bem o significado do progresso. Mas sinta que no todo prevalece admirável composição de estilos, preciosidades coloniais e magníficos exemplares neo-clássicos e ecléticos como não se há de ver em nenhuma outra cidade do ciclo do ouro. Porque aqui é d'El Rey, dourada pelo sol do seu verão ou visão ancestral nas brumosas madrugadas do seu inverno. Esteja em casa. Sirva-se do passado e do presente e receba o abraço do amigo são-joanense."

(Texto de Jota Dangelo extraído de http://www.invernocultural.ufsj.edu.br/)

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